Análise · Governo Lula

A vitória cercada

Lula foi reeleito, mas vai governar com 124 de 513 deputados, 16 de 81 senadores, a oposição à frente de 59% do eleitorado nos estados e um mercado que derrubou a Bolsa em 13,9%. Os números do cerco.

A edição em 5 números

  1. 124deputados na base de Lula. Para barrar um impeachment são precisos 172.
  2. 16 / 81senadores da base. Nem somando todo o centro o governo aprova uma emenda constitucional.
  3. 29senadores do PL em 2027, a maior bancada da Casa desde 1988.
  4. 59%do eleitorado vive em estados governados por PL ou Republicanos.
  5. −13,9%foi a queda do Ibovespa no dia seguinte à eleição, a 2ª maior da história.

Na segunda-feira (26), menos de 24 horas depois da reeleição de Lula, o Ibovespa caiu 13,88% e fechou em 176.608 pontos. Foi a segunda maior queda diária da história do índice, atrás só de 10 de setembro de 1998, durante a crise russa, e o primeiro circuit breaker da B3 desde março de 2020. O dólar subiu cerca de 8%, para R$ 5,40. Os juros futuros para janeiro de 2029 saltaram 2,66 pontos e passaram de 15% ao ano.

O mercado apostava em Flávio Bolsonaro e errou. Mas o pregão de segunda não foi só ressaca de aposta perdida. Ele antecipou uma pergunta que vai acompanhar os próximos quatro anos: o que um presidente reeleito consegue fazer quando quase todo o resto do sistema político foi para o outro lado?

Porque a urna de 2026 não deu só a Presidência. Ela também montou o Congresso mais à direita desde a redemocratização e entregou os estados mais ricos à oposição. Este texto mede essas três paredes, Câmara, Senado e governos estaduais, e a quarta, que é a economia.

A Câmara: 124 votos para governar com 513

O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988. Em 2022 tinham sido 97 ou 99, conforme a contagem. O PT ficou com 70, e a federação PT-PCdoB-PV, com 88.

Somando todos os partidos que hoje apoiam o governo sem condição (a federação do PT, PSOL, Rede, PSB e PDT), a base de Lula na Câmara tem 124 deputados. A oposição declarada (PL, Novo e Missão) tem 132. Os outros 257, quase exatamente a metade da Casa, estão nos partidos de centro e no Centrão: União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos, PSDB, Avante, PRD e Solidariedade.

Câmara em 2027

Os triângulos do gráfico mostram até onde o governo precisa chegar, somando votos do centro à sua base, para cada tipo de votação:

Para… Votos necessários Quantos faltam ao governo
Barrar um pedido de impeachment 172 48
Aprovar lei complementar (maioria absoluta) 257 133
Aprovar emenda à Constituição 308 184

Fonte: TSE, deputados federais eleitos em 4/10/2026; quóruns da Constituição.

O dado mais sério é o primeiro. Lula começa o mandato sem votos próprios para barrar a abertura de um impeachment na Câmara. Vai depender do centro até para se proteger, não só para aprovar projetos.

E o centro não chega neutro. União Brasil, PP e Republicanos declararam apoio a Flávio no segundo turno. Segundo a Gazeta do Povo, o PL já articula com o Novo e com a federação União-PP para tirar Hugo Motta (Republicanos-PB) da presidência da Câmara na eleição de 1º de fevereiro de 2027. Essa aliança somaria cerca de 218 votos, 39 a menos que o necessário. A disputa vai se decidir no varejo, deputado a deputado, como sempre.

O Senado: a maior bancada do PL e o Supremo na mira

Se a Câmara é difícil, o Senado é pior. A partir de fevereiro, o PL terá 29 dos 81 senadores, segundo a projeção da Agência Senado. É a maior bancada da Casa desde 1988. O PT terá 10. Somando PSB, Rede e PDT, a base do governo chega a 16.

Senado em 2027

Mesmo somando todo o centro, 32 senadores, o governo chega a 48, um voto abaixo dos 49 necessários para aprovar uma emenda constitucional. No Senado de 2027, nenhuma mudança na Constituição passa sem o voto de alguém da oposição.

A oposição já disse o que quer fazer com esse Senado: abrir processos de impeachment contra ministros do Supremo, sobretudo Alexandre de Moraes e Flávio Dino. Desde uma decisão do ministro Gilmar Mendes, em dezembro de 2025, tanto a abertura quanto a condenação exigem dois terços da Casa, 54 votos. A oposição tem 33. Precisaria de 21 votos do centro.

Por isso, a eleição para a presidência do Senado, também em 1º de fevereiro, virou a disputa mais importante do início do mandato. É o presidente da Casa quem decide se um pedido de impeachment anda ou vai para a gaveta. O PL trabalha com o nome de Rogério Marinho (RN), líder da oposição. O atual presidente, Davi Alcolumbre (União-AP), diz ter 48 votos para ser reconduzido e afirma ser contra o impeachment de Moraes. O voto é secreto, então a conta dele não passa de promessa.

O conflito não é abstrato. Na mesma segunda-feira do tombo da Bolsa, a Polícia Federal intimou Flávio Bolsonaro a entregar os passaportes, por ordem de Moraes.

Os estados: a oposição governa 59% dos eleitores

A terceira parede está nos estados. A partir de 6 de janeiro, o PL governará Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rondônia e Roraima. O Republicanos, aliado de Flávio no segundo turno, governará São Paulo, com Tarcísio de Freitas reeleito, Minas Gerais, Mato Grosso e Espírito Santo.

Somados, os estados governados por PL e Republicanos reúnem 59,3% do eleitorado brasileiro. Os quatro estados do PT (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte) somam 15%.

Partido do governador Estados Parcela do eleitorado
Republicanos SP, MG, MT, ES 35,6%
PL RJ, PR, RS, SC, RO, RR 23,7%
PT BA, CE, PI, RN 15,0%
PSD PE, MA, AM, SE, AP 11,1%
Outros (PP, Podemos, MDB, PSDB) 7 estados e DF 14,7%

Fonte: TSE, governadores eleitos no 1º e 2º turno; eleitorado apto em 2026.

Nenhum desses governadores precisa de Lula para se eleger de novo. Vários já se movem para 2030. E Minas Gerais, o único estado que deu vitória a Lula entre os dez governados por PL e Republicanos, terá à frente Cleitinho, eleito no primeiro turno com 55,4%.

A economia: menos espaço do que parece

A quarta parede é a conta pública, e o mercado deixou claro na segunda-feira que vai cobrar cada centavo.

O ponto de partida não é confortável:

  • Juros: a Selic está em 13,75% ao ano, depois de cinco cortes seguidos. O boletim Focus desta segunda projeta 13,25% no fim do ano, mas foi coletado antes do salto do dólar.
  • Inflação: o mercado espera IPCA de 5,2% em 2026, acima do teto da meta, de 4,5%. Dólar mais caro pressiona os preços nos próximos meses.
  • Dívida: a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, R$ 11,1 trilhões. Pelas projeções reunidas no Focus, chega a 95% em 2030.
  • Orçamento de 2027: o projeto enviado ao Congresso em 31 de agosto prevê superávit de R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB. A meta oficial é 0,5%. A diferença é coberta pelas exceções do arcabouço fiscal, que tiram R$ 64,7 bilhões da conta.

Em cima disso vêm as promessas de campanha. A InfoMoney estima em R$ 74,6 bilhões o impacto das medidas anunciadas: reajuste de 15% do Bolsa Família, Pé-de-Meia para universitários, nova etapa do Desenrola, perdão de dívidas de MEIs e corte de tributos sobre combustíveis. O orçamento de 2027 que está no Congresso não prevê reajuste do Bolsa Família.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, promete manter o arcabouço e melhorar as contas aos poucos: "Não dá para querer vender para o mercado que no primeiro ano vai resolver esse problema". Lula, em setembro, foi menos diplomático: "No meu governo não tem essa de ficar discutindo ajuste fiscal. Ajuste fiscal eu faço na prática".

O problema é que as soluções que o governo defende também passam pela Câmara e pelo Senado descritos acima. Tributar altas rendas e cortar benefícios fiscais de setores exigem lei aprovada por um Congresso que acabou de ficar mais à direita. Cortar despesas obrigatórias, como pisos de saúde e educação, exige emenda constitucional, ou seja, 308 deputados e 49 senadores. E as emendas parlamentares, que ocupam uma fatia crescente do pouco dinheiro livre do Orçamento, são exatamente o que o Centrão vai cobrar em troca de apoio.

Há também o que já está contratado. O Congresso promulgou em 16 de outubro a emenda que acaba com a escala 6x1. A jornada cai para 42 horas e chega a 40 horas em dezembro de 2027, sem redução de salário. É uma vitória que o governo vai reivindicar, e uma mudança que empresas e governo terão de implementar no meio desse aperto.

O que observar daqui para a frente

Para quem quer acompanhar, cobrar e participar, o calendário dos próximos meses é este:

  1. Copom. Primeira decisão de juros depois da eleição. O mercado esperava novo corte antes do tombo de segunda; vale ver se o Banco Central mantém o ritmo.

  2. Votação do Orçamento de 2027. É onde as promessas de campanha viram (ou não) dinheiro, e onde o Congresso define o tamanho das emendas parlamentares.

  3. Posse de Lula (dia 5) e dos 27 governadores (dia 6), nas novas datas criadas pela Emenda Constitucional 111, de 2021, que valem pela primeira vez.

  4. Eleição das presidências da Câmara e do Senado. É o primeiro teste real do quarto mandato. Se o PL comandar o Senado, os pedidos de impeachment de ministros do STF saem da gaveta.

  5. Jornada de 40 horas passa a valer integralmente.

A vitória e o cerco

Lula ganhou a eleição presidencial por 4,4 milhões de votos. No mesmo dia, o eleitor também escolheu deputados, senadores e governadores, e nessas urnas o resultado foi outro. Não há contradição nisso: é assim que o sistema brasileiro funciona, e é por isso que nenhum presidente governa sozinho.

A diferença em 2027 é de grau. Lula começa o quarto mandato com uma base própria de 124 deputados e 16 senadores, sem votos suficientes nem para se proteger de um impeachment, diante de um Senado que quer julgar ministros do Supremo, governadores de oposição em cinco dos sete maiores colégios eleitorais e um mercado que derrubou a Bolsa em 13,9% antes de qualquer anúncio.

A eleição decidiu quem senta na cadeira. Os próximos quatro anos vão decidir quanto essa cadeira manda, e isso depende menos do Planalto do que de quem vai estar olhando para o Congresso enquanto ele vota.


Como fizemos esta análise

A composição da Câmara foi calculada a partir dos resultados oficiais do TSE para deputado federal (eleição 6259, cargo 6), somando os 513 eleitos por partido. Os eleitos para o Senado e os governadores (eleições 6259 e 6260) também vêm do TSE. Para o Senado completo de 2027, que inclui os 27 senadores eleitos em 2022, usamos a projeção da Agência Senado de 25/10/2026, que considera suplentes de quem virou governador; ela ainda pode mudar até a posse, por trocas de partido e pela situação do registro de Deltan Dallagnol (Novo-PR). A divisão em base, centro e oposição é nossa, segue o alinhamento declarado de cada partido no segundo turno e não substitui o voto de cada parlamentar, que pode divergir do partido. A parcela do eleitorado por partido do governador usa o eleitorado apto por município do TSE.

Este é um texto de análise. Os fatos e números vêm das fontes abaixo; as interpretações são do autor.

Fontes