Análise · Eleições 2026

Anatomia de uma soberba

Flávio Bolsonaro saiu do 1º turno na frente, montou o governo antes da urna e perdeu por 4,4 milhões de votos. Os dados do TSE mostram como.

A edição em 5 números

  1. 4,4 mivotos de vantagem de Lula no fim. Flávio saiu do 1º turno 2,2 milhões à frente.
  2. 74%dos 14,1 milhões de votos novos do 2º turno foram para Lula.
  3. 211 × 1cidades que viraram para Lula contra as que viraram para Flávio.
  4. 39 mindurou a liderança de Flávio na apuração, de 19h47 a 20h26.
  5. 0,8%é o peso dos 35.521 votos dados depois das 17h na diferença final.

Às 20h13 de domingo (25), em uma casa onde Flávio Bolsonaro acompanhava a apuração, um grupo de aliados posou para a câmera com sorrisos e dedos em "V". Flávio tinha 50,30% dos votos apurados. Pouco depois, o mesmo grupo foi fotografado no mesmo cômodo de braços cruzados, mão no rosto, olhar no chão. Entre uma foto e outra, Lula passou à frente e não saiu mais. Ao fim da noite, o TSE confirmou: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL).

A primeira foto não registra só otimismo de noite de eleição. É o retrato de uma campanha que, por três semanas, se comportou como governo eleito. A segunda é o preço disso. As duas estão na cronologia da noite, mais abaixo, no horário em que foram feitas.

Este texto usa os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), baixados por município para os dois turnos, para mostrar onde e como a vantagem de Flávio evaporou. E cruza esses números com o que os próprios aliados do candidato contam sobre os erros da campanha.

O placar

1º turno (4/10) 2º turno (25/10) Variação
Lula (PT) 53.879.538 (45,16%) 64.256.232 (51,79%) +10.376.694
Flávio Bolsonaro (PL) 56.104.503 (47,03%) 59.826.041 (48,21%) +3.721.538
Outros candidatos 9.316.747 —
Brancos e nulos 5.975.047 4.153.801 −1.821.246
Comparecimento 125.275.835 128.236.074 +2.960.239
Abstenção 21,08% 19,22% −1,86 ponto

Fonte: TSE.

Flávio entrou no segundo turno com 2,2 milhões de votos de vantagem. Saiu dele 4,4 milhões atrás. Foi uma virada de 6,65 milhões de votos em três semanas.

De onde veio a virada

De onde veio a virada

Entre os dois turnos, apareceram 14,1 milhões de votos válidos "em disputa". Eles vieram de três lugares. A maior parte, 9,3 milhões, eram eleitores de outros candidatos no 1º turno. Outros 3 milhões foram eleitores que não tinham votado no 1º turno e apareceram no 2º. E 1,8 milhão votaram em branco ou anularam no 1º turno e escolheram um candidato no 2º.

Lula ficou com 10,4 milhões desses votos, 74% do total. Flávio, com 3,7 milhões.

O número mais duro para o PL está aqui. Quase todos os votos de terceiros no 1º turno, 9,06 milhões, foram para candidatos que se apresentavam como oposição a Lula: Augusto Cury (3,45 milhões), Renan Santos (2,68 milhões), Ronaldo Caiado (2,61 milhões) e Romeu Zema (326 mil). Suponha, no cenário mais generoso possível para Flávio, que cada um dos 3,7 milhões de votos que ele ganhou no 2º turno tenha vindo desse eleitorado. Mesmo assim, ele teria herdado menos de 41% dele. No saldo, a maior parte de quem votou contra Lula no 1º turno não foi para Flávio no 2º.

Um cuidado com os números. Os dados de urna mostram saldos, não o voto de cada pessoa. Não dá para dizer quantos eleitores de Cury foram para Lula. Dá para dizer que, somados todos os movimentos, Lula ganhou quase três votos para cada um que Flávio ganhou.

Os municípios ajudam a ver o padrão. Nas 150 cidades onde Augusto Cury teve sua maior votação, a maioria em Minas Gerais e São Paulo, Lula ganhou 1,30 milhão de votos entre os turnos, e Flávio, 568 mil. Nas 150 cidades mais fortes de Renan Santos, o candidato antissistema da direita, concentradas em São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, Lula cresceu 2,62 milhões, o dobro dos 1,28 milhão de Flávio. Só onde Caiado foi mais forte, sobretudo em Goiás, a divisão ficou mais equilibrada.

O mapa da virada

Saldo por região

Lula ampliou o saldo em todas as cinco regiões. Os dois maiores movimentos foram:

  • No Sudeste, a vantagem de Flávio caiu pela metade, de 5,66 milhões para 2,81 milhões de votos. Essa vantagem era a base da sua candidatura.
  • No Nordeste, a vantagem de Lula, que já era de 11,1 milhões, subiu para 13,65 milhões.

O Norte, onde Flávio vencia por 459 mil votos, terminou com Lula na frente por 1.079 votos.

Variação por estado

Em todos os 27 estados, Lula ganhou mais votos do que Flávio entre os turnos. Mesmo no Acre, em Roraima e no Amapá, Flávio terminou com menos votos absolutos do que no primeiro turno. Minas Gerais foi o único estado a trocar de vencedor: Flávio tinha 589 mil votos de vantagem e terminou 109 mil atrás.

Nos municípios, a assimetria é ainda maior:

  • 211 cidades viraram para Lula. Uma virou para Flávio: Uirapuru, em Goiás.
  • Em 938 municípios, Flávio teve menos votos no 2º turno do que no 1º, e perdeu 134 mil votos no total. A maioria fica no Maranhão (171), no Tocantins (115) e no Piauí (110). Lula perdeu votos em só 79 cidades.
  • Entre as viradas para Lula estão a cidade do Rio de Janeiro, base política da família Bolsonaro, além de Osasco, Ananindeua, Macapá e uma série de cidades da Grande BH, como Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Ibirité e Sabará.
  • Nas 27 capitais, Flávio somava 165 mil votos de vantagem no 1º turno. No 2º, Lula terminou 1,56 milhão à frente. Em Belo Horizonte, Flávio venceu por 50,8% a 49,2%.
Capital 1º turno (Lula × Flávio) 2º turno (Lula × Flávio)
Rio de Janeiro 43,9% × 47,9% 51,5% × 48,5%
São Paulo 46,6% × 42,1% 55,5% × 44,5%
Belo Horizonte 41,4% × 48,3% 49,2% × 50,8%
Macapá 43,3% × 47,2% 51,0% × 49,0%
Porto Alegre 48,6% × 41,9% 55,8% × 44,2%

Quem decidiu foi quem apareceu

A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%. Quase 3 milhões de pessoas a mais foram votar. Em eleição de segundo turno, isso não costuma acontecer, e o efeito foi desigual. O Nordeste teve 827 mil eleitores a mais nas urnas, e só a Bahia, 368 mil. Já o Norte teve 238 mil a menos.

O g1 mostrou que, nas 20 cidades com maior queda da abstenção, Lula ganhou mais votos do que Flávio em todas. Na cidade de São Paulo, 276 mil eleitores a mais compareceram; Lula ganhou 812 mil votos e Flávio, 337 mil. No Rio, 156 mil eleitores a mais votaram; Lula ganhou 374 mil votos e Flávio, 123 mil.

Na análise de cada município, o crescimento do comparecimento acompanha o crescimento de Lula com mais força (correlação de 0,73) do que o de Flávio (0,65). Quem ficou em casa no 1º turno e saiu no 2º parece ter pendido para Lula.

A soberba, em quatro atos

Os números mostram o que aconteceu. Os aliados de Flávio ajudam a explicar por quê. Desde segunda-feira (26), relatos publicados pelo PlatôBR, pela Jovem Pan, pela Tribuna de Jundiaí e pelo Metrópoles convergem em um diagnóstico que o próprio PL faz em voz baixa: a campanha agiu como se a eleição tivesse acabado em 4 de outubro.

1. O governo antes da urna. Depois do 1º turno, parte do entorno do candidato passou a discutir ministérios, a especular nomes para o Supremo Tribunal Federal e a planejar a relação com o Congresso. Segundo integrantes do Centrão e do comitê ouvidos pela Tribuna de Jundiaí, Flávio tratava reservadamente da composição da Esplanada e fazia promessas ao empresariado. "Era cedo demais", resume o PlatôBR. Já em 8 de outubro, o Nexo perguntava se o clima de "já ganhou" poderia se voltar contra o candidato. Voltou.

2. Quem já tinha ganhado foi para casa. Aliados eleitos no 1º turno "foram descansar e celebrar", diz o PlatôBR. Caiado, Zema e Cury declararam apoio, mas mal apareceram na campanha. Nas redes, a militância bolsonarista hostilizava justamente os eleitores desses candidatos. Os dados acima mostram o resultado: esse eleitorado não seguiu Flávio.

3. O deboche no horário nobre. No debate da TV Globo, Flávio chamou Lula de "nove dedos" e, segundo aliados ouvidos pela Jovem Pan, debochou da voz do adversário. Os próprios correligionários classificaram as falas como preconceituosas. O tom mais agressivo da reta final é atribuído à aproximação com Pablo Marçal. Junto com as dancinhas do "Bloquinho do 22", animou quem já votava em Flávio e afastou o centro. O PlatôBR resume a imagem que ficou: um "jovem arrogante" contra um "velhinho". Lula ganhou votos em todos os estados.

4. O desprezo filmado. Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, um vídeo sobre "o Nordeste que foi esquecido". As imagens de bastidores vazaram e mostraram a equipe dirigindo os entrevistados. Na própria cidade, Lula cresceu 22,6% entre os turnos (de 20.173 para 24.739 votos), e Flávio, 3,1%. No Nordeste inteiro, Lula ganhou 2,96 milhões de votos e Flávio, 398 mil. Enquanto Nikolas viajava pela região, Minas Gerais, seu estado, foi o único a virar. Somam-se a isso as declarações da coordenadora econômica Daniella Marques que foram lidas como ameaça ao Bolsa Família. Com elas, a campanha de Lula não precisou inventar o medo. Bastou repetir.

A noite, hora a hora

O argumento de Flávio para não reconhecer o resultado é a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que prorrogou a votação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas às 17h. A noite inteira, do pedido de prorrogação ao discurso, cabe numa linha do tempo. Os horários da apuração vêm das parciais do TSE registradas minuto a minuto no histórico da Wikipédia e podem ter alguns minutos de atraso.

A noite da apuração
  1. A campanha de Lula pede extensão do horário de votação, alegando falta de ônibus na Bahia.

  2. A campanha de Flávio pede prorrogação, citando chuvas e alagamentos em cidades de São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

  3. O PT amplia o pedido para todo o país e, por volta das 16h, aciona o STF. Zanin é sorteado relator.

  4. A maioria das urnas fecha. Pouco depois, Zanin prorroga a votação até as 19h nas seções ainda abertas. Às 17h06, o TSE suspende a divulgação, com 0,25% das urnas apuradas.

  5. A divulgação é retomada. Com as primeiras urnas, Lula tem 57,7%. A vantagem dele cai rapidamente à medida que entram os votos do Sul e do Sudeste.

  6. Flávio passa Lula, com 14,6% das urnas apuradas.

  7. A comemoração. Na casa onde o candidato acompanha a apuração, Pablo Marçal grava a si mesmo comemorando a virada de Flávio aos gritos. Ao fundo, enquanto o grupo festeja, duas pessoas erguem as mãos espalmadas pedindo calma; uma delas é Nikolas Ferreira. O vídeo foi enviado ao X às 20h09, perto do pico de Flávio.

    Vídeo enviado ao X às 20h09 · Assista no X
  8. Pico de Flávio: 50,49% dos votos válidos, com 24% apurado.

  9. A foto do "V". Flávio e Tarcísio de Freitas, cercados de aliados, sorriem e fazem o "V" para a câmera. Naquele minuto, Flávio tinha 50,30%, com 35% das urnas apuradas, e a vantagem já vinha caindo havia dez minutos.

    Flávio Bolsonaro e aliados sorriem e fazem o V durante a apuração
    20h13 · Imagem publicada pelo empresário Paul Malicki no Instagram, reproduzida pelo g1.
  10. Lula retoma a liderança, com 47,6% apurado, e não sai mais da frente. A vantagem de Flávio durou 39 minutos.

  11. O silêncio. O mesmo grupo, no mesmo lugar, acompanha os números de braços cruzados. O horário exato da imagem não foi confirmado.

    O mesmo grupo, em silêncio, acompanha a apuração
    Após a virada de Lula · Imagem publicada pelo empresário Paul Malicki no Instagram, reproduzida pelo g1.
  12. Com 86,4% apurado, Lula tem 51,45%. Às 21h11, com 99,7%, chega a 51,75%. A eleição está decidida.

  13. Flávio discursa: "É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. [...] Vamos pedir a anulação dessas eleições."

  14. Com 100% das urnas apuradas, o TSE confirma: Lula 51,79%, Flávio 48,21%.

Segundo levantamento do g1 com dados do TSE, 35.521 votos foram registrados depois das 17h, a maioria nos primeiros minutos, de eleitores que já estavam na fila. A diferença final foi de 4.430.191 votos. Os votos depois das 17h equivalem a 0,8% dessa diferença. Mesmo que todos tivessem ido para Lula e fossem descontados, ele ainda venceria por mais de 4,39 milhões de votos.

No discurso da noite, Flávio disse que "é impossível reconhecer o resultado" e que pedirá "a anulação dessas eleições". Afirmou também que fiscais do PL foram retirados da sala-cofre do TSE. O tribunal desmentiu. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo pelo pai do candidato, disse que "não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial". Ministros do TSE ouvidos pela TV Globo avaliam que o pedido não deve prosperar. Um dos argumentos é que a própria campanha de Flávio pediu a extensão do horário.

A resposta mais eloquente, porém, veio de dentro de casa. Nesta segunda-feira, Nikolas Ferreira publicou um vídeo dizendo que a chance de anular a eleição é "praticamente nula" e pediu que os apoiadores não fossem às ruas.

A segunda-feira

Menos de 24 horas depois da apuração, a Polícia Federal intimou Flávio a entregar os passaportes, inclusive o diplomático. A ordem é do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e, segundo Flávio e reportagens publicadas nesta segunda-feira (26), foi assinada no domingo, dia da eleição. A decisão também proíbe o senador de deixar o país e de ter contato com o advogado Willer Tomaz. Os dois são investigados por suspeita de lavagem de dinheiro, em inquérito que corre em sigilo e chegou ao Supremo em 8 de outubro, no meio do segundo turno.

Flávio diz que a ordem se baseou em uma fala do irmão. Em 23 de outubro, dois dias antes da votação, Eduardo Bolsonaro declarou a um programa americano: "Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza." Flávio afirma que "nunca falou isso", nega irregularidades, chama a medida de intimidação e diz que vai recorrer. O STF não comentou os motivos da decisão.

No domingo, o grupo fazia o "V" para a câmera. Na segunda, o candidato gravava um vídeo explicando por que teria de entregar o passaporte.

O que as duas fotos contam

A soberba não perdeu a eleição sozinha. Lula reorganizou a campanha, levou governadores do Nordeste para a linha de frente e mobilizou gente nas ruas e nas redes. Mas a vantagem com que Flávio saiu de 4 de outubro era real, e era dele para perder. Para perdê-la, foi preciso tratar a vitória como certa, tratar os eleitores dos outros candidatos como dispensáveis e tratar o adversário como piada.

A primeira foto mostra um grupo que já tinha decidido o resultado. A segunda mostra que o eleitor não tinha sido consultado. E o discurso da noite mostra que, para parte desse grupo, a lição ainda não chegou: quem se convence de que a vitória é um direito tende a ver na derrota uma fraude.

O eleitor não deve nada a ninguém, nem a quem lidera as pesquisas.


Como fizemos esta análise

Os resultados de presidente do 1º turno (eleição 6257) e do 2º turno (eleição 6258) foram baixados diretamente do servidor de resultados do TSE (resultados.tse.jus.br), para o Brasil, os 27 estados, o exterior e os 5.570 municípios. A soma dos municípios bate exatamente com o total nacional oficial. As correlações e as comparações entre turnos são ecológicas, isto é, feitas sobre resultados agregados por cidade. Elas mostram padrões, não o voto individual. Os números citados de reportagens do g1, como votos depois das 17h e Luís Eduardo Magalhães, foram conferidos com os dados do TSE.

Este é um texto de análise. Os fatos e números vêm das fontes abaixo; as interpretações são do autor.

Fontes